Patrick Swayze se foi e na memória ficam seus memoráveis filmes que arrebataram corações de toda uma geração. Tá, eu não conheço a filmografia inteira do cara e provavelmente nem vi todos os seus filmes, mas tem um em especial que marcou a minha vida de uma forma bastante relevante -pra não dizer terrível – e esse filme é Dirty Dancing. Eu sei que todo mundo adora a dancinha, a música e a chata Baby, mas eu não compartilho desse mesmo sentimento. Se pudesse escolher, Dirty Dancing nem teria existido.
O ano era 1988 se não me engano. Eu estava completando 12 anos e minha festa de aniversário seria no salão do condomínio onde eu morava, que era bem grande e com muitas crianças, de modo que tinha vários amiguinhos. Eu era uma pré adolescente bastante saudável, sem traumas ou coisas semelhantes. Andava de bicicleta com a mesma desenvoltura que falava em público, coisa que até então não tinha sido um problema. E eu adorava fazer festas de aniversário porque era o meu dia, aquele em que todas as atenções eram voltadas pra mim. Sem contar que era a única época do ano em que eu podia escolher uma roupa nova sem a ingerência da minha mãe e isso significava ter muita independência. Nada nem ninguém poderia me contrariar no dia do meu aniversário. Nada, até os 12 anos.
Acontece que o maldito Dirty Dancing tinha sido lançado no ano anterior e a moda entre as minhas amigas era tentar imitar a coreografia. Então que na minha festa de aniversário nós fizemos uma competição para eleger quem melhor imitava a Baby no filme. Não sei bem porquê acabou só eu e a Aninha competindo. Ela era mais nova, uma ruivinha com sardas – bastante engraçadinha, devo admitir – e fazia ballet na mesma academia que eu. Aninha era ótima na tal coreografia, mas eu também arriscava bem nas piruetas. A competição seria acirrada. Lembro de ter vacilado um pouco antes de começar a dançar por conta da destreza de Aninha. Só me tranquilizei quando lembrei que aquela era a minha festinha e, sendo assim, nada iria me contrariar ou me tirar do centro das atenções, muito menos a Aninha. Na minha cabeça eu achava que seria muita ousadia se os meus convidados não me aclamassem vencedora. E como perder estava fora de cogitação, respirei fundo e me posicionei na pista.
Som na caixa, Aninha e eu nos pusemos a bailar. Rodopiávamos cabeça, tronco e membros de modo virtuoso. Tinha uma parte em que a gente agachava e aí levantava rapidinho jogando a cabeça pra trás, deixando os cabelos fluírem que nem nas propagandas de xampú. Confesso que lá pela metade da música eu já estava toda atrapalhada, mas não parei de dançar. Ainda que eu soubesse ser a dona da vitória, não queria ser desleal e ganhar sem competir até o fim, por isso continuei fazendo meus passinhos e dando meus rodopios, mesmo que meio capenga. Aqui faço uma observação. Apesar de fazer ballet, eu odiava aquilo de sapatilha e rede de cabelo. Fazia porque mamãe achava lindo ir ao Municipal no final do ano me assistir. E eu sempre dava vexames loucos, como por exemplo parar no meio da cena e dar um tchauzinho pra algum conhecido que eu avistava sem querer na platéia ou correr para a coxia pela esquerda enquanto todas as outras meninas corriam para a direita. Eu não era boa na dança, verdade seja dita. Mas voltemos à fatídica competição. Fim da música, um segundo de silêncio e aí vieram as palmas.
A avalanche de vozes gritando “Aninha, tum tum tum; Aninha, tum tum tum” caiu sobre mim como a maior derrota que a vida poderia me dar. Todos os meus convidados estavam ali, formando um meio círculo ao nosso redor e aplaudindo a idiota da Aninha em uníssono. E isso no dia do meu aniversário! Aquele era o dia especial em que o mundo girava em torno do meu umbigo e de mais ninguém, eu havia sido derrotada. Lembro da fúria invadindo meu pequeno peito e da vergonha avermelhando minhas bochechas.
Não quis saber do fim. Não queria consolo de ninguém, nem abraços, nem justificativas. Tudo o que eu queria era sumir. E foi o que eu fiz. Saí correndo pelo prédio e me escondi atrás de um carro. Ouvia as pessoas me procurando, chamando pelo meu nome, mas não respondia e não voltei mais pra festa. Nem sei se tive parabéns naquele ano. Fiquei ali por horas, amargando a vitória da Aninha no dia do meu aniversário, até que a fome falou mais alto do que minha vergonha e eu voltei pra casa. Ninguém nunca mais tocou no assunto.
E assim Dirty Dancing cagou minha adolescência. Foi naquele único segundo de silêncio entre o fim da coreografia e o início da aclamação popular pela vencedora que eu perdi pra sempre minha habilidade de lidar com o público e agir naturalmente diante de mais três pessoas, me tornando essa pessoa tímida e amarga que vocês conhecem. Desde aquele dia, não entrei mais em nenhuma espécie de competição, nem nos jogos do colégio. Aposentei pra sempre as sapatilhas (o que foi um alívio, pra ser bem sincera) e não voltei a dançar. Também não vi mais o filme. Qualquer referência a ele me dava arrepio na espinha. Passei a abominá-lo mais que demais e até hoje tenho pra mim que se trata de um filme super valorizado com uma coreografia medíocre. Patrick Swayze (que deus o tenha) só voltou a ter algum sentido em Ghost.
Se esse não é o maior trauma que uma criança pode ter na vida, não sei qual é. Até hoje eu acordo vez em quando suando no meio da noite, ouvindo as vozes que gritavam contra mim o nome de Aninha, a ruiva. Eu sinceramente espero que Dirty Dancing seja enterrado junto com Patrick. E ai de quem inventar de fazer um remake dessa merda.