Sábado, Maio 10, 2008
Diário de um proletário - Capítulo fim
A vida é assim, quase engraçada. Engraçadinha eu diria. Primeiro me pediram pra redigir uma contestação. Pânico. Não sou o tipo de advogada que faz contestações. Pra ser bem sincera, eu detesto a parte “lide” do direito. Pouco me fodendo estou para as demandas Fulano x cachorro do vizinho; Sicrana x pai que não paga pensão; Mané x Mané que se socaram no trânsito. Trabalhar no contencioso significa isso: passar a ser responsável pelos problemas alheios. Entende a gravidade da coisa? Eu, que sou a rainha da vassoura que varre os problemas pessoais pra debaixo do tapete, me tornando patrona do aborrecimento de terceiros. Mánemmorta. Minha especialidade é na área consultiva. Mesmo que ler contratos também seja um grande pé no saco, é melhor passar o dia tentando achar soluções para pessoas com objetivos comuns do que ficar tentando defender aquilo que, na maioria das vezes não tem defesa. Mariazinha tem uma empresa; Mariazinha precisa de um serviço na sua empresa; Joãozinho presta o serviço que a empresa de Mariazinha quer. Esse contrato tem validade por prazo indeterminado e segue em duas vias com firma reconhecida. Lindo!
Mas me pediram pra fazer uma contestação. Eu nunca redigi uma peça processual assim. Não é díficil. É só sentar no computador e trocar o número da Vara (ui), o nome das partes, os fundamentos de defesa (que já foram fundamentos de outra defesa parecida) e pronto. Fiz a minha como se tivesse saído da barriga de mamãe com uma contestação pronta. O foda é fazer um treco desses baseado em outros trecos que são absolutamente inadequados aos fins que se destinam. Porque aí você tem que começar praticamente do zero. Nem a formatação se salva. Não sei como alguém consegue um cliente de grande porte redigindo defesas cujos parágrafos começam invariavelmente ou com “Assim sendo” ou com “Como se vê”. Nojo. Se a sua finalidade é convencer o *cof* nobre magistrado de que o nome do autor da ação foi parar nos órgãos de proteção ao crédito por culpa exclusiva dele, é bom que você se esforce pra demonstrar isso, caso contrário, seu clientinho vai falir com as condenações por danos morais.
Isso aqui tá chato, eu sei. Tá parecendo até aqueles artiguinhos de quinta que os “colega” de profissão escrevem pro conjur. E não era sobre isso que o capítulo fim do meu diário de proletária comunista/socialista/anarquista deveria tratar. Tampouco a vida é engraçadinha só por que o mundo é povoado de incompetentes que ganham mais do que você. Meu capítulo fim trata de provar por a + b que o meu pé frio é mesmo o maior de toda e qualquer galáxia que possa existir. Senão vejamos: (\o/)
Final de tarde de sexta feira. Você está feliz e tem planos diabólicos de encher a cara calçando all star e cantando indie rock nos inferninhos da augusta por um motivo justo, afinal. Aí te chamam na sala de reunião. E dizem que a casa caiu. Que temos que entregar uma bagaça de 700 processos até segunda feira. Que se você puder ajudar, seriam eternamente gratos. E que sábado - e nem precisa ser às 9 - todos vão trabalhar. Perguntam se você também pode ir. Mas antes que você responda, contam como a rebeldia de 3 estagiários culminou na demissão dos mesmos. E então, você pode vir? Claro que eu posso! Conte comigo. Hoje mesmo já vou ficar até mais tarde agilizando alguns processos.
Primeira semana. Trabalho no sábado. Mas tudo bem. Quem disse que a vida é fácil? E no final do mês, pelo menos, vou ganhar hora extra, certo?
NOT!


