Eu tinha essa história na cabeça como uma das mais engraçadas da vida, daquelas que são repetidas em todo almoço de domingo com a família e nunca era menos hilária. Cada vez que ela se repetia, todos choravam de rir. Mas os almoços de família não acontecem há um bom tempo e eu acho que eu fiquei com o causo do primo do MJ durante muitos anos na cabeça, achando ele sensacional. E quando o rei do pop deu com o rabo na cerca, pensei que era o perfect moment pra compartilhá-la com o mundo.
Daí liguei pra minha mãe pra relembrar os detalhes da vez em que o meu pai não só conheceu o primo do Michael, como também meio que hospedou ele em casa, mas conforme ela ia contando, percebi que havia super valorizado a parada durante todos esses anos. Nem é uma história incrível na verdade, mas já que eu disse que ia fazer três homenagens ao Michael, voilá.
Meu pai era radialista. Começou a colecionar discos aos cinco anos de idade e eu contabilizei 60 mil LPs quando ele morreu. Suas músicas preferidas sempre foram as dos artistas da Motown. Naquela época as coisas demoravam pra chegar aqui e como ele tinha um pouco mais de acesso do que o resto dos mortais, acabava conhecendo as coisas antes. Foi assim que ele pirou primeiro no Jacksons 5 e depois no próprio MJ. Eu sempre gosto de contar que meu papito lançou vários artistas no Brasil. Ouvia uma música e sabia se ela seria sucesso ou não. Ele era excepcional nesse quesito e poderia ter ganhado muito dinheiro, não fosse a sua ingenuidade quase infantil. Não consigo imaginar qual seria a opinião do meu pai sobre MJ se ele – meu pai, não o Michael – estivesse vivo. Teria perdido o encanto? Acharia ele weirdo just like the rest? Não sei e esse post não é sobre isso.
Como radialista, ele vivia nas gravadoras. Acho que na época em que meu pai e o primo do Michael ficaram próximos, ele era diretor da extinta Odeon Records. Numa dessas idas à gravadora, conheceu um gringo tão aficcionado em música quanto ele. Conversa vai, conversa vem, um beck aqui, outro ali, surpresa: o gringo era primo do Michael Jackson. E mais surpresa: o primo do Michael Jackson estava hospedado no Casa Grande Hotel, no Guarujá, porém sem carro de modo que meu pai, muito solícito, lhe ofereceu uma carona. E foi nas curvas da estrada de Santos que eles descobriram infinitas afinidades musicais. Fim da viagem, despediram-se na balsa – porque né, o primo do Michael Jackson se hospeda no Casa Grande Hotel e atravessa pro Guarujá de barquinha – e combinaram de se encontrar no dia seguinte.
E no dia seguinte bem cedo toca a campainha. Lá estava o primo do MJ na porta de casa pro café da manhã. Daria meu mindinho pra ter visto a expressão de felicidade do meu pai diante da chance única de tomar café da manhã com o primo do Michael Jackson – seu grande ídolo vale lembrar – na sua própria casa. Daria o outro mindinho pra ver a expressão de “fodeu” na cara da minha mãe diante do fato. Porque o primo do MJ ficou o dia inteiro por lá, com direito a almoço e janta. E voltou no dia seguinte. E no outro e no outro e assim foi durante uma semana. Todos os dias ele chegava bem cedo e só ia embora de noite.
Onde meu pai ia, levava o primo do Michael Jackson junto. Foram a gravadoras, foram em rádios e foram em festas. Estavam tão íntimos que o primo do MJ já tomava banho em casa e usava roupas do meu pai emprestadas. Geral desconfiava que o cara era loroteiro, mas meu pai não. Onde já se viu duvidar do primo do Michael? Que heresia, pô!
Num belo dia, minha mãe foi pra rádio e levou o primo do Michael Jackson junto. E uma vez que ela andava de saco cheio de dar pensão completa pro figura, resolveu fazer umas perguntas básicas pra ele. Então seguiu-se esse diálogo:
Mãe pergunta: Como se fala nariz em inglês?
Primo do MJ responde: Nãrrrrrizzzz…
Mãe pergunta: E orelha, como se diz orelha em inglês?
Primo do MJ responde: Ourrrrreilia…
Mãe pergunta: Você não é americano porra nenhuma, né?
Primo do Mj se fode.
Fodido e sem green card saída, o primo do Michael Jackson confessou que não era primo do Michael Jackson. Que sequer era americano (ah vá!). Descobriram que ele era um drogadito vindo de Cajamar expulso de casa pela família. Que tinha recebido abrigo numa igreja, mas como roubou o padre, fora expulso também. E todas as noites, quando ele ia embora da casa dos meus pais depois do jantar, dormia num banco em frente ao Casa Grande Hotel.
E foi assim que a amizade do meu pai com o primo do Michael Jackson acabou. Quando soube da verdade, só disse um “puxa, que pena”. Afinal, que diferença fazia? O cara era legal, não era? Folgado, mas não era meu pai quem cozinhava. Como se nada tivesse acontecido (oi?), voltou pro seu quarto, continuou ouvindo suas músicas, lançando seus sucessos, fumando seu baseadinho e enfim. Taí um cara que era feliz.
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Ok, essa não é uma homenagem pro Michael Jackson. Em que momento desse post o rei do pop se sentiria homenageado, não sei. Sei que esse era meu pai. Vai saber se agora ele não está acertando contas com o próprio MJ…