Todos os dias eu vou até a banca de jornal que tem aqui na esquina comprar cigarros. Um dia desses o jornaleiro me perguntou “e pra ler, não quer nada?”. Fiquei constrangida. Porque né, eu nunca comprava nada na banca além de cigarro. Nem uma revista, nem um jornal nem mesmo um pacote de figurinhas. Então no dia seguinte eu voltei lá e comprei também uma revistinha de passatempo. Eu adoro passatempo Coquetel, me dê um, uma caneta e você não ouvirá minha voz por horas (ficaadica). Acabou virando rotina. A cada dois ou três dias eu comprava um passatempo junto com o cigarro e assim não me sentia tão mal. Tá certo que o jornaleiro deve ter pensado que eu sou uma pão dura, afinal uma revistinha dessas não custa mais de três reais, mas enfim. Pelo menos agora não eram só os cigarros.
Passaram-se uns meses e veio a tal coleção folha de grandes escritores brasileiros. Nunca fui fã de escritores brasileiros e tirando Vidas Secas (que eu me arrependi amargamente de ter lido por causa do capítulo em que a cadela Baleia morre), alguma coisa do Veríssimo e A Casa dos Budas Ditosos do Ubaldo, não li mais nada. Não li Clarice, não li Jorge Amado e nenhum dos livros indicados no vestibular. Acho um porre literatura brasileira, abro mão de qualquer clássico da terrinha em prol de um Hornby ou outro escritor moderninho. Mas aí, tem o Machado. Eu sempre me senti pouco culta por não saber discutir se Capitu traíra ou não Bentinho. Eu sei que poderia ter fingido qualquer merda de opinião, mas veja bem, pessoas que discutem esse tipo de coisa são umas pentelhas certamente sabem distinguir uma opinião fake sobre o tema. Pelo menos eu acho que sabem. E o carão de fingir seria bem pior do que admitir a falta de interesse em Machado, Capitu ou Bentinho. Já estive com o livro muitas vezes na mão, mas aí desistia dele e escolhia outro mais atraente. Mesmo porque, o último ano foi de finanças bem controladas e eu não tinha muitos dinheiros pra comprar dois ou três livros de uma vez.
Então que a folha super me salvou dessa falta de cultura, má vontade para gastar 30 ou 40 reais com um livro pelo qual não me sentia em nada atraída e problemas de pão durice com o jornaleiro da esquina. Quando eu perguntei a ele se já havia recebido os primeiros livros da coleção, ele abriu um sorriso e disse que eu nem precisaria comprar o jornal. E foi assim que por R$ 14,90 eu adquiri Dom Casmurro, Morte e Vida Severina (que eu não sei se um dia vou ler) e fiquei bem na fita com o jornaleiro. Hoje passo por ele de manhã e ele já me dá bom dia e até arrisca uma brincadeira com a vira lata.
E eu estou, aos poucos, engolindo Bentinho. Não vou mentir, não estou gostando muito. Acho péssimo ler “cousas” e outras palavras de grafia duvidosa. Sem contar que não é uma leitura muito fácil, de vez em quando tenho que ler o mesmo parágrafo duas vezes. Mas na próxima discussão que surgir em mesa de bar sobre a traição, ou não, de Capitu, poderei dizer com todas as letras minha humilde opinião:
- Cara, foda-se a Capitu e o Bentinho. Machado de Assis é um verdadeiro pé no saco.



24 Comentários
02/05/2008 às 4:22 PM
E esse nem é o melhor livro dele; a maioria acha que sim, mas eu discordo.
Bah, eu gosto de literatura clássica, mas alguns autores são um saco mesmo; não leia LIMA BARRETO, eu que gosto não suporto, imagine quem não gosta.
02/05/2008 às 5:17 PM
Eu CHOREI lendo a morte da Baleia. Depois joguei o livro fora.
Odeio bichinho que morre, porra.
02/05/2008 às 8:55 PM
mas ae chega alguém e fala que acha ele bacana e tem a audácia de te perguntar por que vc n gosta. Ler “cousas” e achar estranho e pouco, hora!
Tá, é um saco.
Mas eu queria polemizar! Como todo cara chato que gosta dessa literatura.
02/05/2008 às 9:18 PM
Na boa? Leia morte e vida severina antes. É bem melhor. E se quer ler algo decente de Machado de Assis, leia O Alienista. É mó legal.
Agora que paguei de “intelectualzinho”, será que perdi minha credibilidade como falador de merda???
02/05/2008 às 9:35 PM
Fia, leia “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Sério, acho que você vai gostar. Brás Cubas era muito do mal.
02/05/2008 às 9:56 PM
Gosto muito de Machado. E até entendo que o pobrezinho escrevia do jeito fresco que o povo falava na época dele, mas concordo com as dicas do povo daí de cima. Memórias de Brás Cubas e O Alienista são beeeem melhores do que “a gaia ou não da doida da Capitu no bitolado do Bentinho”. Até porque um mamão como ele merecia muito mais que uma simples gaia.
Bjo
02/05/2008 às 10:42 PM
Esse texto todo é mentira. Vc vai na banca e compra a Nova.
\o/
E vc sabe q esse povo q quer ser metido a intelectual de boteco, depois vai comer fulana q não sabem nem escrever ditado popular certo (pausa para o rancor).
Anfãm, o Brás Cubas é bem bacana, a Capitu tava certa, a Baleia foi só pra emocionar e eu odeio o Macunaíma.
02/05/2008 às 11:14 PM
Pé no saco é pouco. Li no terceiro colegial pra algum vestibular, praguejando a cada parágrafo.
Traumatizei.
03/05/2008 às 11:08 PM
Eu tb prefiro Brás Cubas, a Capitu era uma chata histérica.
Agora, a frase final do seu post foi a melhor em anos!
BEIJOS!
Agora deixa eu terminar meu Harry Potter, hehehe.
04/05/2008 às 2:10 AM
Se tivesse perguntado a minha opinião,
teria economizado 14,90 e comprado mais cigarros
hehehehe
04/05/2008 às 7:56 PM
huhauhau
acredita que eu adorei ler D. Camusrro !!!!!
04/05/2008 às 8:54 PM
Gosto de Machado, apesar de achá-lo melhor contista e cronista que romancista.
Agora, o equívoco que a maior parte das pessoas comete ao lê-lo é esquecer de contextualizá-lo. É como ler Sheakespeare e não imaginar as pessoas declamando as falas num palco ou ler Ilíada e se esquecer que era texto para ser lido à luz de fogueiras ou nas ágoras.
Ou seja, chato pra caralho se não houver pré-disposição para encarar a trolha.
Ah! recomendo o Crônicas Marcianas do Ray Bradbury. Bem melhor que o Farenheit 451.
beijos
04/05/2008 às 9:50 PM
amiga, que alívio saber que não estou só no planeta.
odeio machado, josé de alencar então…que horror…graciliano ramos…etc…santos deus.
clarice eu leio e adoro.
m.
05/05/2008 às 11:50 AM
É;
Tenho que concordar, já vivi muito essa experiência de discução versus não ter opinião pq num leu e o pau comeu… ou então fingir que sabe…
Como diz minha Prof.: “Você disse… disse, e até aqui não me disse nada…”
Machado é interessante, mas a gente tem que escolher o que ler dele, o autor possui momentos diferentes e conhecendo o que ele escreveu é mais fácil escolher o que ler e o que se adapte ao nosso gosto.
tem um conto… “A Serenissima Republica”… eu gosto, é meio excentrico mas a analogía social é muito boa…
confira.
bjofui.
05/05/2008 às 2:03 PM
eu gostei dos olhos de ressaca da Capitu, sim… acho que até hoje foi o que mais me atraiu. mas o Brás Cubas compartilha do nosso humor negro, viu, ah se compartilha!
05/05/2008 às 5:57 PM
Herege!
05/05/2008 às 6:26 PM
hahahahahhaha
Adorei o post.
Também odiei o bendizido Dom Casmurro.
E sempre achei a capitu uma vaca…
o.O
Beijo.
05/05/2008 às 9:33 PM
Vou ter ataques aqui, hein? Diverente do povelho da minha faculdade, que venera o mala (na minha humilde opinião) do Guimarães Rosa, eu suspiro pelo Machadão (ui!).
Concordo com alguém que disse que é preciso contextualizar Machadão pra que se consiga gostar dele. E, se o português é das antigas, os tipinhos que ele descreveu (agregado puxa-saco, pobretona desinibida que subiu de posição social através do casamento, homúnculo depressivo e com mania de perseguição) também estão na revista Caras, na Novela das 8 e, pasme, nos livros do Hornby (que, sim, eu também leio).
É só olhar/ler com outros olhos!
06/05/2008 às 12:12 PM
Não suporto José de Alencar, aquela prolixidade dele me dá ansiedade.
Me considero BEM melhor que a Sofia Copolla. Achei A garota da vitrine infinitamente melhor que encontros e desencontros e disse isso em voz alta em uma rodinha cult.
06/05/2008 às 1:06 PM
Pra mim você trabalha na Folha.
rs
“Quem dera fosse eu do marketing da folha. Mas se vc trabalhar lá, pega meu cv?\o/”
09/05/2008 às 8:11 AM
Blasfêmia, blasfêmia!!! Ok, essa palavra não ofende ninguém… aliás, não sei uma palavra pra te ofender…rsrs… Vou pensar…
Beijo!
13/05/2008 às 2:10 PM
Ai, cara, na boa. Tem muita gente que nem se esforça. Fica “buá buá buá, é chato, tenho que ler duas vezes, buá” e já abre o livro esperando ler uma coisinha fácil, mastigadinha e na linguagem de hoje. O que é óbvio que não vai encontrar.
Acho assim: ao pegar o livro, você SABE que ele foi escrito em mil oitocentos e guaraná com rolha. Sabe que não vai ser mamão com açúcar. Então, tem que estar disposto a ler algo que não é da sua época, uai! Tem que estar disposto a desvendar o que está ali. Afinal, há uma razão para aquilo ser considerado um clássico, não?
Tem algo de bom ali e é o interesse em descobrir o que é que deve levar à leitura do tal livro – e não pq vc se sente obrigado a ler só pq os outros leram. Que coisa mais besta. Nego tem uma puta disposição pra decorar nomes esdrúxulos no senhor dos anéis e depois diz que Machado é difícil e indecifrável. Ah, me poupe…
Uma boa dica é ler resenhas, críticas etc. No caso dos classicões, não faltam textos que expliquem a importância social e histórica da obra. Depois de ler essas coisas, fica mais fácil se interessar e entender o livro. Mas, como eu disse, nego nem se esforça. Abre Machado querendo ler Surfistinha.
Marjorie, você é uó.
13/05/2008 às 2:32 PM
[...] I`m already dead A culpa não é nossa Maio 13, 2008 Eu fico com tremilique ao ler esse tipo de coisa (Sério, leia os comentários também). Reproduzo aqui o comentário que deixei no blog da [...]
13/05/2008 às 9:03 PM
Pra quê ler Machado se tem Paulo Coelho né? Revista Nova, Capricho… bem mais fácil. Pra que pensar, minha gente? Bora pedir tudo mastigadinho porque é assim que brasileiro gosta.
Isso aí gatinha, lei do mínimo esforço rules.